Leitura comentada da tese Freemasonry in the Ottoman Lands: A Transnational History, de Rüştü Murat Tiryaki

Uma procissão em Salônica
Nos primeiros dias depois da Revolução dos Jovens Turcos, em julho de 1908, as ruas de Salônica viram uma cena que condensava uma mudança de época: membros das lojas maçônicas locais apareceram publicamente, usando suas insígnias. Durante o longo governo de Abdülhamid II, a presença maçônica havia sido muito mais discreta, associada a redes comerciais e diplomáticas, à filantropia e a formas reservadas de sociabilidade. Agora, depois da restauração da Constituição, os obreiros se apresentavam à cidade como participantes visíveis de uma nova atmosfera política.[1, pp. 147–163]
A cena é concreta, mas a interpretação exige cautela. O primeiro tropeço do leitor — e especialmente do neófito — é imaginar que, se alguns dirigentes dos Jovens Turcos eram maçons e se certas lojas serviram de abrigo para encontros políticos, então a Maçonaria inteira teria dirigido a Revolução de 1908. A tese de Rüştü Murat Tiryaki é valiosa justamente porque permite formular uma conclusão mais difícil e mais verdadeira: a Maçonaria otomana foi, ao mesmo tempo, uma infraestrutura de sociabilidade plural, uma rede transnacional e, em determinados lugares e momentos, um ambiente de conexão política; mas não se confunde automaticamente com o Comitê de União e Progresso nem pode ser convertida, sem prova, em autora única da revolução.
“A loja aparece como um observatório privilegiado dessa crise.”
Essa diferença entre presença, conexão e causalidade será o fio condutor desta leitura.
A tese em exame
Defendida em 2022 no Departamento de História da İhsan Doğramacı Bilkent University, em Ancara, a tese de Tiryaki estuda a Maçonaria nas terras otomanas desde os primeiros contatos do século XVIII até o colapso do Império depois da Primeira Guerra Mundial. O autor não escreve uma história completa de cada loja, tampouco pretende reconstruir o conteúdo esotérico ou ritual da instituição. Seu objeto é principalmente organizacional e sociopolítico: como as lojas se formaram, sob quais obediências trabalharam, que redes sociais as sustentaram e de que maneira se relacionaram com comércio, diplomacia, reformas, correntes intelectuais e organizações políticas.[1, pp. 1–16]
Essa delimitação é importante. A expressão “Maçonaria otomana” não designa, durante a maior parte do período estudado, uma única autoridade nacional. Antes de 1909, muitas lojas estabelecidas dentro do Império trabalhavam sob obediências estrangeiras — francesas, italianas, britânicas, espanholas e outras. Somente depois da Revolução de 1908 se consolidou o esforço para formar uma obediência otomana soberana, com a reorganização de um Supremo Conselho em março de 1909 e a formação do Grande Oriente Otomano em agosto do mesmo ano.[1, pp. 164–177]
O argumento geral da tese pode ser resumido em três movimentos. Primeiro, a Maçonaria chegou e se desenvolveu em conexão com portos, comércio, diplomacia e circulação de pessoas. Segundo, sobretudo a partir da Guerra da Crimeia e do Edito de Reforma de 1856, as lojas passaram a incluir súditos otomanos de diferentes origens religiosas e étnicas, tornando-se espaços de sociabilidade plural. Terceiro, no eixo balcânico e especialmente em Salônica, algumas dessas redes se aproximaram de grupos oposicionistas e dos Jovens Turcos, até que, após 1908, a própria Maçonaria se viu envolvida na construção institucional e nas disputas políticas do novo período constitucional.[1, pp. 125–165]
A tese, portanto, não é somente sobre maçons. É também sobre um império multiétnico tentando preservar ou reorganizar sua unidade em meio a reformas, nacionalismos, ingerências estrangeiras e conflitos internos. A loja aparece como um observatório privilegiado dessa crise.
“a Maçonaria otomana não cabe numa narrativa exclusivamente nacional”
O recorte cronológico
Para não tratar três séculos de história como uma sequência sem diferenças, a leitura pode ser organizada em cinco momentos. Eles não são compartimentos estanques: indicam mudanças de ênfase, de escala e de relação com o poder.
| Período | Movimento histórico | Questão maçônica central |
| Século XVIII–1856 | Contatos iniciais em portos, redes diplomáticas e circuitos comerciais | Como uma instituição transnacional se instala em um império plural? |
| 1856–1876 | Pós-Guerra da Crimeia, Edito de Reforma e expansão das lojas | Inclusão de súditos otomanos e formação de sociabilidades intercomunitárias |
| 1876–1908 | Constituição, Murad V, governo de Abdülhamid II e vigilância política | Discrição, filantropia, redução da participação muçulmana e abrigo oposicionista |
| 1906–1909 | Sociedade Otomana de Liberdade, CUP, Revolução de 1908 e Grande Oriente | Passagem da sociabilidade reservada à visibilidade política e à soberania institucional |
| 1909–1918/1922 | Obediência nacional, CUP, guerra e colapso imperial | Tensão entre fraternidade universal, nacionalismo, soberania e reconhecimento |
O recorte não deve ser confundido com uma cronologia exclusiva da Maçonaria. Cada mudança maçônica depende de conjunturas mais amplas: reformas imperiais, crises balcânicas, rivalidades europeias, nacionalismos e guerras. A tese é mais forte quando mostra essa dependência do contexto do que quando o leitor tenta convertê-la em história autônoma da Ordem.
O mapa: dois eixos, uma rede transnacional

Tiryaki identifica, em sua conclusão, dois grandes eixos geográficos da atividade maçônica otomana. O primeiro é o eixo norte, formado por Istambul, Salônica e Izmir. O segundo se estende pelo sul, de Cairo e Alexandria ao Levante, incluindo Palestina e Síria.[1, pp. 221–224] O mapa abaixo é uma visualização editorial desses eixos. Ele não reconstitui as fronteiras do Império em nenhuma data específica: usa fronteiras contemporâneas apenas como referência cartográfica e localiza aproximadamente as cidades mencionadas na tese.

As linhas pontilhadas que partem de Paris, Londres e Roma também não devem ser lidas como rotas militares ou como prova de comando. Elas representam o caráter transnacional das obediências, das correspondências, dos reconhecimentos e das circulações culturais. O mapa ensina uma primeira lição metodológica: a Maçonaria otomana não cabe numa narrativa exclusivamente nacional. Ela se desenvolveu dentro do Império, mas por meio de relações que atravessavam seus limites.
“A discrição era uma condição de sobrevivência.”
Essa geografia também ajuda a evitar outro erro. Istambul, Salônica, Izmir, Cairo, Alexandria, Jerusalém, Beirute e Damasco não constituíam um único ambiente social. Cada cidade tinha composição demográfica, relações imperiais, idiomas, elites e conflitos próprios. Falar em pluralidade não significa imaginar harmonia permanente. Significa reconhecer que a sociabilidade maçônica funcionava em um espaço onde diferença religiosa, pertencimento étnico, posição social e lealdade política estavam constantemente em negociação.
Da rede comercial à sociabilidade plural
Os primeiros contatos registrados no século XVIII aparecem ligados, sobretudo, a estrangeiros, diplomatas, comerciantes e comunidades portuárias. Essa origem não é um detalhe secundário. Ela mostra que a Maçonaria não se expandiu no vazio: acompanhou redes de mobilidade já existentes. O comerciante precisava de confiança; o diplomata, de interlocutores; o expatriado, de uma forma de inserção social; o intelectual, de uma linguagem que atravessasse fronteiras. A loja podia oferecer, em graus diferentes, um lugar onde esses interesses se encontravam.
Depois da Guerra da Crimeia, a paisagem se alterou. O aumento das relações com a Europa e as reformas do Império favoreceram a expansão de instituições sociais, educacionais e culturais de caráter transnacional. A Maçonaria passou a atrair mais súditos otomanos, inclusive muçulmanos, armênios, gregos, judeus sefarditas e outros grupos que conviviam sob a administração imperial. Os registros preservados não permitem transformar essa inclusão em uma experiência homogênea; mas permitem dizer que, em certas lojas, pessoas de origens diferentes trabalharam sob o mesmo teto e partilharam formas de auxílio, debate e pertencimento.[1, pp. 214–223]
O estudo de Paul Dumont, usado aqui como contraponto, reforça essa imagem ambivalente. O autor observa que a geografia das lojas otomanas acompanhava, em grande medida, a penetração econômica e colonial europeia. Ao mesmo tempo, descreve lojas envolvidas com filantropia, educação e discussão de temas públicos, além de registrar que algumas se politizaram intensamente no período dos Jovens Turcos. A Maçonaria podia ser, portanto, uma instituição de influência estrangeira e uma sociabilidade apropriada por atores locais; podia reproduzir hierarquias imperiais e também oferecer linguagem de igualdade e fraternidade.
Aqui começa a camada simbólica da leitura. A pluralidade de uma loja não deve ser confundida com a simples soma de nacionalidades presentes em um registro. O símbolo da fraternidade, para ter algum peso moral, precisa ser testado pela convivência concreta. Quantos podiam entrar? Quem permanecia à margem? Que diferenças eram toleradas apenas enquanto não ameaçassem o equilíbrio social? A tese sugere que as lojas foram mais inclusivas em determinados ambientes latinos do que em muitas lojas britânicas, mas também mostra que inclusão institucional não elimina relações de poder.[1, pp. 220–223]
O neófito pode tropeçar na palavra “universal”. Ela não descreve automaticamente uma sociedade sem exclusões. No caso otomano, a universalidade era uma aspiração em disputa, atravessada por classe, religião, língua, império e obediência. Seu valor está menos em declarar que a fraternidade já estava realizada do que em revelar o trabalho necessário para aproximar a instituição do ideal que proclamava.
O eixo norte e a questão de Salônica
Salônica ocupa posição central na narrativa porque reunia características excepcionais. Era um grande porto balcânico, centro cultural e financeiro da Macedônia e cidade de população multiétnica, com importante comunidade judaica sefardita. Ao redor dela, porém, a Macedônia também era atravessada por conflitos nacionalistas e por organizações clandestinas. Era uma cidade de sociabilidade plural, mas igualmente uma cidade de tensão.
Nesse ambiente, a Maçonaria fornecia algo que ultrapassava a cerimônia: oferecia relações, confidencialidade, circulação internacional e acesso a pessoas de diferentes comunidades. A tese relaciona lojas como Macedonia Risorta, de obediência italiana, e Veritas, de obediência francesa, à formação e à proteção de atividades dos Jovens Turcos. Em particular, a Sociedade Otomana de Liberdade, formada em Salônica em 1906, teria evoluído para o Comitê de União e Progresso em 1907; parte de seus fundadores já se movimentava em conexão com lojas locais.[1, pp. 152–157]
Há uma diferença decisiva entre dizer que as lojas foram usadas como abrigo e dizer que a Maçonaria formulou, por si, todo o programa político do CUP. A primeira afirmação encontra apoio nos registros e na reconstrução documental apresentada por Tiryaki. A segunda exigiria uma prova causal muito mais ampla. A própria tese ressalta que a extensão da influência maçônica sobre as ações posteriores do CUP permanece aberta ao debate.[1, pp. 148–151]
Essa cautela é especialmente necessária porque a relação entre Jovens Turcos, judeus e maçons foi recoberta, desde cedo, por narrativas conspiratórias. A historiografia discutida na tese mostra interpretações que variam entre minimizar a Maçonaria como simples cobertura ocasional, reconhecer conexões importantes sem atribuir a elas controle político, ou enfatizar a interligação entre lojas e dirigentes do CUP. A leitura historicamente responsável não escolhe uma dessas versões por gosto narrativo: compara documentos, distingue associação de influência e pergunta o que cada fonte tinha interesse em afirmar.
O caso de Emmanuel Carasso é ilustrativo. Sua presença em redes maçônicas e suas relações com Talat Bey e outros dirigentes do CUP são relevantes para compreender a circulação entre sociabilidade, política e comunidade sefardita. Mas a existência de um intermediário importante não transforma toda a comunidade judaica de Salônica em bloco político, nem toda a Maçonaria em aparelho do CUP. A prudência aqui não é uma concessão à dúvida; é uma forma de proteger a história contra o mecanismo simplificador da conspiração.
“A fraternidade madura não nega sua capacidade de influência: aprende a governá-la.”
1908: quando a discrição se torna visibilidade
Antes de 1908, a presença pública da Maçonaria em muitas áreas do Império estava associada principalmente a obras filantrópicas e encontros sociais. Sob a vigilância de Abdülhamid II, lojas ligadas a oposição política enfrentaram riscos, e a participação muçulmana diminuiu de modo acentuado em alguns registros. A discrição era uma condição de sobrevivência.
Depois da Revolução dos Jovens Turcos, a situação se inverteu. Os maçons de Salônica saíram à rua com suas insígnias; reuniões em Istambul celebraram a restauração constitucional; e a Maçonaria passou a ocupar uma posição de visibilidade política que não tivera antes.[1, pp. 157–163] A exposição pública era também uma declaração de pertencimento ao novo regime, ou pelo menos às esperanças de liberdade e reorganização imperial que o acompanhavam.
Aqui podemos descer da camada literal à esotérica, sem inventar nenhum ensinamento reservado. O que se torna visível é a passagem de uma fraternidade protegida pela sombra para uma fraternidade que precisa responder à luz pública. O segredo, entendido historicamente como discrição organizacional, podia proteger dissidentes; mas, quando a organização se aproximou do poder, a mesma sombra passou a produzir suspeita. O que antes era abrigo podia ser interpretado como conluio.

A lição não pertence apenas ao passado otomano. Toda instituição que trabalha em círculos internos precisa aprender a distinguir reserva de opacidade. A reserva protege pessoas e processos legítimos; a opacidade impede que a sociedade compreenda finalidades, responsabilidades e limites. Em 1908, a Maçonaria otomana ganhou liberdade de aparecer, mas também perdeu a possibilidade de ser julgada apenas por seus próprios membros.
1909: da sociabilidade à instituição nacional
A formação do Grande Oriente Otomano em 1909 é um dos pontos mais fortes da tese. O processo foi conduzido de cima para baixo: primeiro se reorganizou um Supremo Conselho; depois, com representantes de lojas existentes, proclamou-se o Grande Oriente Otomano. Essa escolha respondia a problemas práticos e políticos. Era preciso reunir lojas submetidas a obediências estrangeiras, reivindicar autoridade territorial, obter reconhecimento e situar a Maçonaria otomana em pé de igualdade com organizações nacionais europeias.[1, pp. 164–177]
Mas a nova instituição nasceu em uma zona de tensão. De um lado, havia o ideal de reunir os elementos do Império sob uma fraternidade comum. De outro, havia o desejo político de limitar a influência de obediências estrangeiras e impedir que suas redes servissem à formação de novos núcleos de oposição. A nacionalização da autoridade maçônica era, simultaneamente, um gesto de soberania e uma tentativa de administrar a potência política da sociabilidade maçônica.
A relação com o CUP tornava essa ambiguidade mais aguda. Membros importantes do Comitê estavam ligados às lojas e tinham experiência de como uma organização discreta podia facilitar contatos, lealdades e circulação. A proximidade também ajudava o reconhecimento estatal. Contudo, a Maçonaria nacional não se tornou por isso uma extensão simples do governo. Ela continuava submetida a disputas de reconhecimento internacional, a rivalidades entre campos maçônicos e às próprias fraturas do Império.
A camada alquímica da reflexão pode ser introduzida aqui com cautela. A transmutação histórica não é transformar uma imagem em prova; é observar como uma matéria institucional muda quando submetida a pressão. A mesma sociabilidade que antes servia a comerciantes, diplomatas, intelectuais e reformistas foi colocada em contato com a revolução, o Estado e a guerra. O resultado não foi uma substância pura, mas uma liga: fraternidade, interesse, idealismo, cálculo, patriotismo, influência estrangeira e esperança constitucional misturados em proporções variáveis.
O que a tese faz muito bem
A primeira grande contribuição de Tiryaki é transnacional. Em vez de tratar a Maçonaria otomana como um apêndice exótico da história europeia ou como uma antecipação simples da Maçonaria turca republicana, a tese acompanha obediências, pessoas e instituições atravessando fronteiras. Isso permite compreender por que uma loja em Salônica podia ter implicações que alcançavam Roma, Paris, Cairo ou Istambul.
A segunda contribuição é ligar sociabilidade e política sem reduzir uma à outra. Os obreiros não aparecem apenas como conspiradores, e as lojas não são descritas apenas como clubes filantrópicos. Comércio, diplomacia, educação, filantropia, religião, nacionalismo e oposição se cruzam. A tese sustenta que as pessoas entravam na Maçonaria por motivações variadas: redes sociais, interesses comerciais, busca intelectual, filantropia, aspirações políticas e, em alguns casos, ganho pessoal. A complexidade da motivação humana é preservada.
A terceira contribuição é enfrentar o antimaçonismo como problema de percepção histórica. O autor registra que acusações e teorias conspiratórias cresceram justamente quando a Maçonaria se entrelaçou de forma mais visível com a política. A suspeita não nasce somente de fatos inventados; às vezes se alimenta de fatos reais interpretados de forma totalizante. Havia maçons no CUP, havia lojas que serviram de abrigo e havia redes internacionais. Nada disso, por si só, prova que todos os maçons obedeciam a um centro oculto ou que a instituição controlava o Império.
Limites, perguntas e pontos de tensão
A própria tese reconhece limitações importantes. A narrativa se concentra principalmente em Istambul, Izmir, Salônica e Egito. Outras áreas do Império aparecem de modo mais seletivo. Isso não invalida o estudo, mas delimita sua representatividade. O mapa é amplo; a densidade documental não é uniforme.
“A universalidade não é um estado adquirido para sempre: é uma obra em andamento, sujeita a revisão, responsabilidade e autocorreção.”
Há também a dificuldade dos arquivos. Registros de lojas podem ter sido perdidos, destruídos, mantidos em acervos de acesso restrito ou preservados apenas por obediências estrangeiras. A pandemia limitou o acesso direto do pesquisador a parte dos materiais. Assim, a ausência de um registro não prova ausência de atividade, e a presença de um nome em um registro não revela sozinha a profundidade de sua convicção ou influência.
Outro limite está no salto entre filiação e causalidade. Saber que um dirigente político era maçom é diferente de saber quanto sua filiação orientou suas decisões. Saber que um grupo se reuniu em uma loja é diferente de demonstrar que a loja, como instituição, aprovou o programa político do grupo. A tese geralmente reconhece essa diferença, mas o leitor deve mantê-la viva ao atravessar suas páginas.
Também seria desejável que futuras pesquisas aprofundassem a experiência dos membros comuns. A história tende a se iluminar pelos nomes de príncipes, ministros, diplomatas, jornalistas e líderes revolucionários. Mas a sociabilidade plural não existia somente nas cúpulas. Quem pagava as contribuições? Como eram recebidos os recém-iniciados? Quais conflitos cotidianos apareciam nas atas? Que lugar ocupavam trabalhadores, pequenos comerciantes, professores e homens sem projeção pública? A grandeza da tese abre justamente esse campo de investigação.
O ensinamento para o obreiro de hoje
A leitura moral não consiste em copiar a política otomana. O contexto brasileiro, os ritos, as obediências e as jurisdições contemporâneas são outros. A aplicação está em observar três responsabilidades.
A primeira é não confundir fraternidade declarada com fraternidade praticada. A loja plural precisa examinar seus próprios mecanismos de entrada, permanência, linguagem e reconhecimento. A pergunta não é somente quantos grupos estão representados, mas se podem realmente trabalhar, falar e ser ouvidos.
A segunda é reconhecer que toda rede de confiança possui poder. Quando irmãos se encontram, recomendam, protegem ou abrem portas uns aos outros, a sociabilidade produz efeitos. Isso pode favorecer educação, filantropia e conciliação; também pode gerar favoritismo, fechamento e captura institucional. A fraternidade madura não nega sua capacidade de influência: aprende a governá-la.
A terceira é tratar a transparência como instrumento de preservação, não como inimiga da tradição. Uma instituição não precisa expor aquilo que é reservado para explicar suas finalidades públicas, sua história, seus limites e sua responsabilidade social. Quanto mais uma organização participa da vida pública, mais precisa aceitar que será interpretada por pessoas de fora dela.
No fundo, o caso otomano nos coloca diante de uma pergunta alquímica e moral: quando uma instituição entra em contato com a política, ela transforma a política, é transformada por ela, ou apenas revela matérias que já estavam presentes? A tese de Tiryaki sugere que as três coisas podem ocorrer ao mesmo tempo.

Conclusão: nem conspiração, nem inocência retrospectiva
A Maçonaria otomana entre sociabilidade plural e política dos Jovens Turcos não deve ser lida como uma história de inocência absoluta nem como uma história de comando secreto. Ela foi uma instituição situada em um império plural, penetrado por interesses estrangeiros, atravessado por reformas, nacionalismos e disputas de soberania. Suas lojas ofereciam fraternidade, mas também redes; cultivavam filantropia, mas podiam abrigar debates e alianças; falavam em universalidade, mas enfrentavam exclusões concretas.
A grande força da tese de Tiryaki está em acompanhar essa ambivalência sem dissolvê-la numa explicação única. A Maçonaria aparece como espaço de encontro e instrumento de circulação. Em Salônica, certas lojas se aproximaram de atores decisivos dos Jovens Turcos. Em 1908, os maçons tornaram pública sua alegria constitucional. Em 1909, tentaram construir uma autoridade nacional capaz de organizar a pluralidade interna e responder às obediências estrangeiras. Em cada etapa, o ideal fraternal foi posto à prova pela história.
Para o estudante maçônico, a lição é sóbria. A fraternidade não se mede pela beleza da palavra, mas pelo modo como atravessa diferenças reais. A discrição não é automaticamente virtude, nem a visibilidade automaticamente traição. A universalidade não é um estado adquirido para sempre: é uma obra em andamento, sujeita a revisão, responsabilidade e autocorreção.
Quando uma loja se torna rede social, espaço de proteção e interlocutora política ao mesmo tempo, que mecanismos podem impedir que a fraternidade se transforme em privilégio ou em poder sem prestação de contas?
Referências
Relatório de lacunas
Não localizei uma resenha acadêmica independente dedicada especificamente à tese de Tiryaki. A avaliação crítica apresentada aqui é, portanto, uma leitura editorial baseada na própria tese, em seu aparato metodológico, em seus limites declarados e em contrapontos bibliográficos verificáveis.
O texto integral de Hanioğlu, a entrada integral de Ahmad e o artigo completo de Zürcher não estavam disponíveis nas páginas consultadas. Por isso, não lhes atribuo argumentos detalhados além dos metadados públicos e das discussões que a própria tese de Tiryaki faz sobre a historiografia pertinente.
As linhas do mapa são esquemáticas. Elas não representam fronteiras otomanas em um ano específico, rotas militares, cadeia de comando ou prova de causalidade. As coordenadas são aproximadas e contemporâneas; o mapa serve para visualizar os eixos geográficos discutidos na tese, não para substituir a cartografia histórica.
A tese reconhece que sua documentação é desigual, que parte dos arquivos maçônicos tem acesso restrito ou foi perdida e que a narrativa se concentra em Istambul, Izmir, Salônica e Egito. Mantive essa limitação junto das conclusões e não extrapolei os achados para toda a população do Império ou para toda a Maçonaria contemporânea.
As camadas simbólica, esotérica, alquímica e moral são interpretações editoriais. Não são apresentadas como origem histórica comprovada da Maçonaria otomana, nem como doutrina reservada de qualquer rito.
