A Régua e o Malho: Sobre a Tolerância que Constrói e a Conivência que Derruba

Peça arquitetônica preparada mas não apresentada (ainda).

Hoje, eu não quero falar sobre um símbolo de metal ou de pedra que adorna nosso Templo. Quero falar sobre uma ferramenta que todos nós portamos, aqui dentro: o nosso discernimento. Uma ferramenta invisível, mas que, dependendo de como a usamos, pode construir catedrais de virtude ou abrir rachaduras que comprometem todo o nosso edifício.

Fomos ensinados, desde o primeiro dia, a amar a Tolerância. E com razão! A tolerância é a argamassa que une pedras de diferentes formas, origens e texturas. É a virtude que nos permite conviver em harmonia, respeitando as diferenças de opinião, de fé, de visão de mundo. É o que nos permite sentar lado a lado e nos chamarmos de Irmãos. A tolerância é a aceitação do homem, com todas as suas particularidades.

Mas, meus Irmãos… o que acontece quando a tolerância se deforma? O que acontece quando, em nome de uma suposta paz, nós nos tornamos cegos aos erros que ferem não o homem, mas os princípios que juramos defender?

Isso tem um nome: Conivência. E a conivência é a argamassa misturada com areia demais. Ela parece unir, mas não tem liga, não tem força. Na primeira tempestade, tudo desmorona.

•Tolerância é respeitar o direito de um Irmão pensar diferente de mim.

•Conivência é ver um Irmão agir contra tudo o que a Maçonaria representa e fingir que não é da nossa conta.

•Tolerância é uma virtude ativa, que exige força e sabedoria.

•Conivência é uma omissão covarde, que se disfarça de prudência.

E é aqui, meus Irmãos, que precisamos ser cirúrgicos. Tenho ouvido, em nossos corredores, sussurros que justificam a inação. Argumentos que, embora pareçam prudentes, são, na verdade, o som do nosso Templo rangendo sob o peso da omissão. Vamos analisá-los sob a luz da nossa Arte Real:

Argumento 1: “Não nos compete fazer nada.”

Meus Irmãos, se não compete a nós, construtores, zelar pela integridade da nossa construção, a quem competirá? Se um pedreiro vê uma parede sendo erguida com pedras defeituosas e se cala, ele não é um bom pedreiro. Ele é um cúmplice do desabamento. Nosso juramento não foi apenas para construir, mas para preservar o que foi construído. A omissão não é neutralidade; é tomar o partido do erro.

Argumento 2: “Isso vai causar divisão.”

Eu lhes pergunto: o que causa mais divisão? Um debate franco e honesto, que busca corrigir um rumo e fortalecer nossos alicerces? Ou o silêncio que permite que a injustiça e o desrespeito criem ressentimento, desconfiança e rachem a nossa fraternidade por dentro? A verdadeira divisão não vem do debate, mas da decepção. Da percepção de que nossos juramentos se tornaram palavras vazias.

Argumento 3: “Vamos causar desconforto em outros Irmãos.”

E o desconforto que já sentimos, meus Irmãos? O desconforto de ver nossos princípios sendo ignorados? O desconforto de ter que explicar ao mundo profano como atitudes antimaçônicas podem brotar de dentro de um Templo? O bisturi do cirurgião causa um desconforto momentâneo para evitar a morte do paciente. A correção fraterna pode ser desconfortável, mas ela visa curar o corpo da Loja, não agradar a doença.

Argumento 4: “Cada um tem seus princípios e valores.”

Sim, no mundo profano. Mas aqui dentro, não. Aqui dentro, nós voluntariamente abdicamos de uma parte de nossos valores “pessoais” para abraçar um conjunto de valores universais e imutáveis: os Landmarks, os nossos rituais, os nossos juramentos. Se os princípios de um Irmão são incompatíveis com os princípios da Ordem, então há uma pergunta a ser feita: o que ele está fazendo entre nós? Não somos um clube social que aceita tudo em nome da diversidade. Somos uma Ordem Iniciática com um propósito definido.

E o argumento final, o mais triste de todos: “O que somos nós senão formiguinhas? Não temos força nenhuma.”

Irmãos… olhem para a história. Olhem para os gigantes que nos precederam. Eles eram “formiguinhas”. Homens que, sozinhos, não eram nada, mas que, unidos por um ideal, mudaram o mundo. A força da Maçonaria nunca esteve no poder individual de seus membros, mas na unidade em torno de seus princípios. Dizer que não temos força é a maior das inverdades. É esquecer que cada um de nós é uma pedra viva na construção de um Templo que atravessa séculos. Nossa força não está no status profano, mas na retidão de nossas ações.

Então, o que fazer?

Não peço uma caça às bruxas. Não peço julgamentos apressados. Peço algo mais difícil e mais maçônico: peço Coragem e Atitude.

1.Coragem para usar a Régua: Medir as ações, não os homens, e verificar se elas estão de acordo com os 24 pontos de nossos princípios.

2.Coragem para usar o Malho: Quando a ação está em desacordo, usar o malho da correção fraterna. Não para destruir, mas para desbastar as arestas, para chamar à ordem, para lembrar do juramento.

3.Coragem para usar o Nível: Lembrar a todos, não importa seu status no mundo profano, que aqui dentro somos todos iguais perante a Lei Maçônica.

Meus Irmãos, a credibilidade que nos resta não será restaurada com silêncio, mas com coerência. Com a coragem de sermos exatamente aquilo que dizemos ser: homens livres, de bons costumes e construtores sociais.

Que o Grande Arquiteto do Universo nos dê a sabedoria para distinguir a tolerância que une da conivência que corrói. E que Ele nos dê, acima de tudo, a coragem de agir segundo essa sabedoria.

He Dito.

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