
Significado e Origem
A expressão Era Vulgar (abreviada como E.’.V.’.) é utilizada em documentos maçônicos, especialmente pela Maçonaria Simbólica, como sinônimo de Era Comum ou calendário gregoriano.
Etimologia
Era: Deriva do latim aera, designando um ponto de referência temporal a partir do qual os anos são contados. Representa um período determinado no tempo que serve de base para a contagem dos anos.
Vulgar: Tem origem no latim vulgaris ou vulgus, significando originalmente “do povo” ou “comum”. Até o século XVI, a palavra “vulgar” não possuía conotação pejorativa, referindo-se simplesmente ao que era acessível ou pertencente às massas, ao povo comum.
Com o tempo, especialmente após o século XVI, a palavra passou a adquirir significados como “grosseiro” ou “indecente”, o que contribuiu para interpretações equivocadas da expressão “Era Vulgar” nos dias atuais.
Significado Correto
Segundo o Dicionário Michaelis, “vulgar” significa:
1.Relativo ou pertencente ao vulgo, à plebe; popular
2.Que não se sobressai ou que não se destaca; banal, comum, corriqueiro
3.Que revela ser de qualidade inferior; baixo, grosseiro
4.Que se sabe; que é do conhecimento de todos; notório, sabido
Portanto, Era Vulgar significa literalmente “Era Comum” ou “Era do Povo”, referindo-se ao calendário utilizado pela população em geral, o calendário gregoriano mundialmente adotado.
Uso na Maçonaria
A Maçonaria utiliza a expressão Era Vulgar (E.’.V.’.) para se referir ao calendário gregoriano comum, em contraposição ao calendário maçônico ou Ano da Verdadeira Luz (V.’.L.’. ou A.’.L.’.).
Por que a Maçonaria usa “Era Vulgar”?
A Maçonaria possui seu próprio sistema de datação, baseado no Anno Lucis (Ano da Luz), que adiciona 4.000 anos ao ano do calendário gregoriano. Esta prática foi estabelecida por James Anderson nas Constituições de 1723, com base nos cálculos do bispo anglicano James Ussher, que determinou que a criação do mundo teria ocorrido em 4004 a.C.
Quando os maçons precisam fazer referência ao calendário comum (não maçônico), utilizam a expressão Era Vulgar para diferenciá-lo do calendário maçônico.
Exemplos de Uso
Calendário Maçônico: “Aos 15 dias do 3º mês do ano de 6025 da V.’.L.’.” Calendário Comum: “15 de maio de 2025 da E.’.V.’.”
Não é uma Negação do Cristianismo
É importante esclarecer que o uso da expressão Era Vulgar não representa uma negação da figura de Cristo ou do cristianismo. Trata-se de uma escolha que reflete:
1.Universalidade: Tornar a linguagem histórica mais universal e neutra
2.Respeito à pluralidade: Reconhecer que a Maçonaria acolhe homens de diferentes tradições religiosas
3.Precisão cronológica: Diferenciar claramente entre o calendário maçônico e o calendário comum
Equivalência com Outras Expressões
A expressão Era Vulgar (E.’.V.’.) é equivalente a:
•Era Comum (EC)
•Anno Domini (d.C.) – “Depois de Cristo”
•Calendário Gregoriano
Todas essas expressões referem-se ao mesmo sistema de datação, baseado no nascimento de Jesus Cristo como marco temporal.
Calendário Maçônico vs. Era Vulgar
| Aspecto | Era Vulgar (E.’.V.’.) | Verdadeira Luz (V.’.L.’.) |
| Referência | Calendário Gregoriano comum | Calendário Maçônico |
| Ano base | Nascimento de Cristo | Criação do mundo (4000 a.C.) |
| Cálculo | Ano atual | Ano atual + 4000 |
| Exemplo (2025) | 2025 da E.’.V.’. | 6025 da V.’.L.’. |
| Uso | Referência a datas não maçônicas | Documentos maçônicos oficiais |
Conclusão
A expressão Era Vulgar na Maçonaria é simplesmente uma forma de designar o calendário comum (gregoriano) utilizado pela população em geral, em contraposição ao calendário maçônico próprio da Ordem. O termo “vulgar” deve ser compreendido em seu sentido original latino de “comum” ou “do povo”, sem qualquer conotação pejorativa.
Seu uso reflete a universalidade da Maçonaria e o respeito à pluralidade de crenças, permitindo que maçons de diferentes tradições religiosas compartilhem um sistema de datação neutro e inclusivo.
Em tempo: Acréscimos após a finalização da pesquisa acima.
Raramente paramos para pra pensar: “mas de onde, exatamente, veio isso?”. Essa ´é uma história é fascinante!
Para entender os ( X ) anos, precisamos conhecer duas figuras-chave: um arcebispo extremamente estudioso e um pastor maçom muito pragmático.
1. O Indicador: Arcebispo James Ussher (O Erudito do Século XVII)
A pessoa que “indicou” o valor original não foi um maçom, mas sim James Ussher, um arcebispo irlandês que viveu entre 1581 e 1656. Ele era um dos maiores eruditos de sua época, uma verdadeira autoridade em teologia e história antiga.
Ussher dedicou anos de sua vida a um projeto monumental: calcular a idade da Terra usando a única fonte que, para ele e para a vasta maioria das pessoas daquele tempo, era 100% confiável: a Bíblia. Ele não fez isso de qualquer jeito; ele cruzou as genealogias do Antigo Testamento (aquelas listas de “fulano gerou ciclano, que viveu tantos anos…”), com eventos históricos conhecidos de outras civilizações (persas, gregos, romanos) para criar uma cronologia completa.
Em 1650, ele publicou sua obra-prima, “Os Anais do Mundo”, e cravou uma data para a criação: o ano de 4004 a.C. Ele foi tão específico que chegou a dizer que a criação começou no anoitecer de 22 de outubro daquele ano!
2. O Adaptador: Pastor James Anderson (O Maçom Pragmático)
Agora, pulamos para o início do século XVIII. A Maçonaria como a conhecemos estava se organizando, e a Grande Loja de Londres encarregou um pastor presbiteriano chamado James Anderson de compilar as regras e a história da Ordem. O resultado foi o famoso “Livro das Constituições”, de 1723.
Anderson tinha um objetivo claro: mostrar que os princípios da Maçonaria eram universais e atemporais. Ele queria um calendário próprio para a Ordem, que não fosse diretamente ligado a nenhuma religião específica (apesar de todos ali serem cristãos), mas que tivesse um peso simbólico forte. O que ele fez?
Ele pegou o trabalho de Ussher, que era a cronologia mais respeitada e “científica” da época, e fez uma pequena, mas genial, adaptação: arredondou o 4004 a.C. para 4000 a.C.
Por que foi Crível e Aceito por Todos?
Essa é a parte mais interessante. A ideia foi aceita por uma combinação de fatores:
- Credibilidade da Fonte: Ussher não era um qualquer. Ele era uma autoridade intelectual. Seus cálculos eram vistos como o auge da erudição histórica e teológica. Outros gigantes da ciência, como Johannes Kepler e Isaac Newton, também fizeram cálculos parecidos e chegaram a números muito próximos!
- Contexto da Época: No século XVIII, a Bíblia era o principal livro de história. A geologia moderna, a datação por carbono e a teoria da evolução ainda não existiam. A ideia de que a Terra tinha apenas alguns milhares de anos era o consenso científico e cultural.
- Simplicidade e Praticidade: O arredondamento de Anderson foi um golpe de mestre. Tornou a conversão de datas extremamente fácil. Em vez de somar 3999 ou 4004, bastava somar 4000. Simples e direto.
- Significado Simbólico: Para a Maçonaria, o mais importante não era a precisão científica (uma preocupação mais moderna), mas o simbolismo. Ao datar seus documentos a partir da “criação do mundo”, a Ordem estava declarando que seus valores — Luz, Verdade, Conhecimento — eram tão antigos quanto a própria existência. Nascia assim o Anno Lucis, o “Ano da Luz”.
Em resumo:
| Quem indicou? | James Ussher, um arcebispo, que calculou 4004 a.C. como a data da criação. |
|---|---|
| Quem adaptou? | James Anderson, maçom, que arredondou para 4000 a.C. nas Constituições de 1723. |
| Por que foi crível? | Porque Ussher era uma autoridade, o cálculo era considerado científico para a época e se alinhava com a visão de mundo do século XVIII. |
| Por que foi aceito? | Pela credibilidade da fonte, pela simplicidade do arredondamento e, principalmente, pelo poderoso valor simbólico que conferia à Maçonaria. |
Hoje, claro, sabemos que a Terra tem bilhões de anos. Mas a Maçonaria mantém o calendário do Anno Lucis por tradição e por seu belo significado simbólico, e não como uma afirmação científica. É uma forma de honrar nossa história e de lembrar que nossa busca pela Luz é uma jornada que remonta ao início dos tempos.
